Para efeitos individuais essa é uma dica um tanto óbvia, pois logo nos ocorre o que faríamos e o que deixaríamos de fazer se ficássemos ricos, de modo que formamos uma imagem muito clara das facilidades que seriam imediatamente desfrutadas.
Mas, a ideia aqui é de que a sociedade precisa enriquecer para melhorar. Não apenas para que as pessoas possam desfrutar de mais facilidades, mas para sermos de fato uma boa sociedade. Nesse caso, é importante notar que apenas aumentar o PIB não causa efeitos positivos e imediatos tão óbvios assim, pois a questão é o ciclo de pobreza que reflete uma cultura de fragilidades que não nos permitem prosperar, experimentar ou evoluir. Dinheiro não compra uma nova cultura, ou seja, uma sociedade rica significa muito mais do que dinheiro circulando nela.
O Nobel de economia Angus Deaton publicou em 2020 o livro Deaths of Despair and the Future of Capitalism, em que analisa como a instabilidade econômica e a precarização do emprego
aumentam as taxas de mortalidade, além de mostrar uma espiral de destruição das famílias, que ficam mais vulneráveis a separações, as crianças com mais dificuldades na escola e os adultos
se limitando a lutar pela sobrevivência. Em cenários assim, exigir envolvimento político coerente, maturidade e cidadania, se torna um esforço quase supérfluo, pois não há como as pessoas pensarem na coletividade quando estão vendendo o almoço para comprar a janta.
Viver em uma sociedade rica não é apenas um objetivo final, mas também uma base
necessária. O cientista político Robert D. Putnam demonstrou em seu estudo Growing Class Gaps, como a pobreza gera a fragilização dos arranjos familiares, aprofundando um ciclo de estagnação social que gera desastrosos reflexos políticos.
A pobreza acaba cimentando existências precárias. Para amplos setores empobrecidos o futuro é artigo de luxo, ou seja, não está à disposição. Sem perspectiva as pessoas são consumidas por esforços muito básicos que as distanciam do próprio desenvolvimento pessoal.
Vidas precárias formam uma teia social precária. A incerteza não permite o desenvolvimento da confiança que é necessária a uma sociedade vibrante e produtiva.
O baixo valor econômico de gerações completamente absorvidas pelas necessidades mais básicas forma multidões socialmente desvalorizadas e politicamente ressentidas, que compartilham um turbilhão de recriminações, desrespeitos e disfunções que deformam a vida social e política.
Esse é um diagnóstico que não pretende atacar ninguém, mas que deveria desconcertar a todos nós.
A pobreza gera distanciamento das questões públicas, o que aumenta a desigualdade política e por fim sabota a democracia. A preocupação com esse assunto serve para evitarmos saídas
revolucionárias, pois a concepção marxista sobre “classe dominante” vai se tornando atrativa em sociedades empobrecidas, já que é nestas que se impõem maiores obstáculos à melhoria de vida.
Se não nos enriquecermos como sociedade teremos existências precárias continuamente assombrando a vida política. As elites governantes vão se separando do restante da sociedade,
enquanto a classe média e os pobres adotam o ódio populista e o ressentimento, rejeitando as instituições nas quais não encontram apoio, atacando tudo o que lhes parece estranho ou
desconhecido. Uma sociedade empobrecida sempre está sob o risco de se desintegrar rapidamente, pois na luta pela sobrevivência nossas atividades vão ficando menos diversificadas, e assim nos tornamos cada vez mais distantes, estranhos e mutuamente
insensíveis.
Podemos concluir que uma sociedade rica é uma sociedade melhor e vice-versa. E dependemos do protagonismo das elites econômicas para que balizem e inspirem as ações de governos – em todos os níveis – no sentido de criar ambientes econômicos mais produtivos para todos. Essa luta é mais profunda do que a mera exigência de menos impostos.
A economia é resultado das relações produtivas, que podem ser eficientes ou não. A luta por uma sociedade melhor exige regimes tributários funcionais e justos, ambientes regulatórios que
estimulem a ação de longo prazo, circulação de investimentos e recursos menos especulativos, e formação de pessoas.
A iniciativa privada já entendeu há tempos que precisa investir em conhecimento para ter bons
resultados em suas áreas de atuação. Mas, estranhamente, muitos continuam pensando que uma atuação social e política pode ser feita com base em percepções rasas e de senso comum sobre a realidade, e preferem reagir de forma intempestiva às decisões públicas. As elites produtivas precisam estar preparadas para participarem da formulação das agendas políticas
para a economia local e regional. E isso exige conhecimento sobre relações institucionais e governamentais.
Já foi repetido à exaustão que para o Brasil crescer precisamos de estabilidade, crescimento econômico e produtividade. Acredito que as forças econômicas locais têm um grande papel em fortalecer a comunidade, participando de forma ativa na configuração do ambiente econômico e mesmo cultural. Uma sociedade rica e desenvolvida surge do esforço de quem pode envolver recursos como tempo, dinheiro e pessoas em sua construção.

Cientista Social e Sociólogo
Últimas Notícias
Associações de magistrados rebatem declaração de Dino sobre o Judiciário
O ministro afirmou que o Judiciário vive seu momento mais corrupto, gerando reações das entidades que defendem a integridade da categoria e criticam a generalização de casos que deveriam ser tratados de forma individual
Cármen Lúcia lamenta descrença nas instituições em meio à crise no STF
A fala ocorre um dia depois de Cármen Lúcia pedir desculpas ao povo brasileiro durante o julgamento realizado pelo STF na terça-feira (15). A sessão terminou sem uma conclusão sobre o relatório que aponta uma relação entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes
Lula tenta se distanciar de crise com Moraes e diz que não o indicou à Corte
O petista disse que Flávio tenta relacioná-lo ao ministro e afirmou que a reação contra Moraes estaria ligada à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e às decisões relacionadas aos atos de 8 de janeiro de 2023
Siga nos
Leia também
O ministro afirmou que o Judiciário vive seu momento mais corrupto, gerando reações das entidades que defendem a integridade da categoria e criticam a generalização de casos que deveriam ser tratados de forma individual
A fala ocorre um dia depois de Cármen Lúcia pedir desculpas ao povo brasileiro durante o julgamento realizado pelo STF na terça-feira (15). A sessão terminou sem uma conclusão sobre o relatório que aponta uma relação entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes
O petista disse que Flávio tenta relacioná-lo ao ministro e afirmou que a reação contra Moraes estaria ligada à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e às decisões relacionadas aos atos de 8 de janeiro de 2023
A manifestação foi uma reação à sessão extraordinária que terminou sem uma definição sobre investigar ou não o ministro Alexandre de Moraes
Em outra postagem Lula escolheu a imagem de um cemitério durante a pandemia e em outra, uma fila de pessoas em uma agência de emprego, com duas fotografias de Bolsonaro para vincular os assuntos
A reunião ocorre em meio à estratégia do petista de ampliar a aproximação com o eleitorado evangélico, segmento no qual pesquisas frequentemente apontam vantagem de Flávio Bolsonaro (PL)
Para Lula, o modelo adotado em 2021 não resolveu os problemas econômicos e limitou a capacidade de um presidente eleito de conduzir a política econômica de acordo com o programa aprovado nas urnas