Economia

O boicote seletivo

Quando o “filósofo diz a piada já vem pronta”, ele não está exagerando

Foto de João Fernando Silva

João Fernando Silva

7 de agosto de 2025

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O boicote seletivo

Quando o “filósofo diz a piada já vem pronta”, ele não está exagerando

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João Fernando Silva

7 de agosto de 2025

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Quando o “filósofo diz a piada já vem pronta”, ele não está exagerando. A mais nova campanha de internautas brasileiros nas redes sociais é um exemplo clássico de contradição em estado bruto — daqueles que dariam um bom case de análise comportamental no mercado financeiro. Um grupo de usuários resolveu organizar um boicote às empresas norte-americanas a partir do dia 6 de agosto, em reação à taxação de 50% imposta pelo governo dos Estados Unidos aos produtos brasileiros. A ação seria uma forma de retaliação, uma espécie de grito patriótico digital.

Claro que o plano já nasce morto. Primeiro, porque está sendo articulado em uma plataforma americana. Sim, o X, antigo Twitter, é norte-americano. E segundo — e mais importante — porque quem está convocando o boicote está usando iPhone, calça Levi’s, tênis Nike, toma Coca-Cola e maratona Netflix. Dá para levar a sério?
Vamos destrinchar a bizarrice, porque ela diz muito sobre a falta de noção de como funciona o mundo globalizado — especialmente para quem investe.

O nacionalismo de iPhone na mão.

Entre as mensagens exaltadas em defesa do boicote, circulam listas com marcas que “devem ser evitadas”. Algumas das “ameaçadas”: McDonald’s, Nike, Subway, Pizza Hut, New Balance, Levi’s, Reebok, Under Armour… Tudo coisa leve, que o povo consome diariamente. E é aí que a contradição vira espetáculo.

Porque se você vai boicotar a Nike, então prepare-se para calçar Havaianas o ano inteiro. Vai parar de comer no McDonald’s? Ok, mas que tal começar boicotando os próprios aplicativos no seu celular, já que quase todos os sistemas operacionais são americanos? Quer trocar o iPhone por um Xiaomi? Show! Só não se esqueça de que o Android é da Google, uma big tech norte-americana. Sem exceção.

Você quer um notebook “nacional”? Boa sorte. Talvez encontre um Positivo na prateleira, mas ele vai rodar com o quê? Windows? Ah, é, Windows também é dos EUA.

Querem reunir o “exército do boicote”? Vão usar o quê? X (americano)? WhatsApp (americano)? Instagram (americano)? Não, vamos para o Telegram, que é russo! Ótimo, mas… vai usar o Telegram em quê? Em um tablet ou celular que roda com Android ou iOS, claro.

O que se configura, então, é o boicote seletivo de conveniência: aquele onde se protesta com filtro no Instagram e hashtag com celular americano.

O mercado não se move com gritaria digital

Como investidor, a análise que faço é direta: esse tipo de comportamento mostra o abismo entre o grito emocional e o funcionamento real do sistema financeiro. A grana circula nos EUA, os mercados se consolidam lá, os grandes fluxos de capital
passam por Wall Street. Você quer enriquecer, ter acesso às melhores empresas do mundo, dividendos consistentes, tecnologia de ponta? A sua grana tem que estar lá.

Mesmo os mais ferrenhos nacionalistas de Twitter, no fundo, sabem disso. Por isso usam Google, Amazon, Apple, Meta e Microsoft no dia a dia. Essas empresas não são apenas marcas: elas moldam a infraestrutura do século XXI.

Se você é investidor, não tem como ignorar isso. Ou vai querer apostar todas as fichas em empresas que ainda estão décadas atrás em inovação e escala global? O risco político e institucional no Brasil é um obstáculo perene. Lá fora, apesar de tudo, o dinheiro é respeitado. Aqui, ainda discutimos se taxar dividendos resolve alguma coisa.

Foge pra montanha… sem GPS, sem avião, sem sistema bancário

Minha sugestão pra quem quer realmente boicotar os EUA é simples: foge pra montanha. Mas vá a pé, porque não dá pra usar carro com peças americanas. E cuidado com o avião, que depende de componentes eletrônicos dos EUA. Leve apenas a roupa do corpo, porque as fibras, etiquetas, sensores e sistemas de rastreamento provavelmente envolvem alguma tecnologia vinda de lá. E, por favor, não tente sacar dinheiro em nenhum banco que use servidor americano — ou seja, quase todos.

O investidor lúcido olha para cima

Enquanto isso, no mundo real dos mercados, o que investidores sérios fazem é o contrário: aproveitam o momento para identificar oportunidades. Tarifas impactam margens, afetam previsões, mexem com câmbio. Tem gente ganhando com isso. Tem fundo reposicionando carteira. Tem ETF se movimentando. Enquanto os ativistas digitais discutem a cor do tênis da Nike, os gestores estão olhando spreads, riscos e ajustes táticos.

Essa comoção online é só mais um capítulo do teatro de indignação performática. Porque no fim do dia, a retórica anti-EUA é falada no idioma americano, com teclado americano e energia vinda de sistema com chips americanos. O mercado não perdoa esse tipo de contradição — e nem precisa. Ele apenas ignora.

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