Há uma década o clima político se alterou radicalmente no Brasil.
Em 2013 a insatisfação ganhou as ruas, mas no ano seguinte Dilma foi reeleita. Dois anos depois as ruas já mostravam uma polarização clara e o impeachment selou o segundo mandato daquela presidente.
As ruas seguiram agitadas – não somente protestando, mas também em campanha. Um presidente outsider e declaradamente de direita foi eleito na esteira desse processo. Esse presidente não sofreu impeachment, mas foi de várias formas impedido de governar de acordo com a representatividade que lhe foi conferida pelo voto popular.
Seja como for, e em que pese toda a agitação promovida por mobilizações populares, campanhas eleitorais e novos mandatos, uma parcela significativa da população brasileira se descobriu em lemas e bandeiras conservadoras.
O conservadorismo seguiu como força emergente no discurso das ruas e chegou até os parlamentos em todos os níveis do Estado. A força do discurso – na voz do povo e de muitos políticos – representou uma grande mudança na forma de comunicação política -impulsionado pelas novas tecnologias da informação.
A comunicação política foi fortemente impactada. Porém, a percepção sobre o papel da sociedade civil organizada na ação política, ainda não foi suficientemente transformada.
Se a mensagem conservadora não for indutora de formas de ação realmente conservadoras, não passará disso: uma mensagem. Portanto, o que pode haver de diferente na ação conservadora, que vá além da manutenção de contra-narrativas?
Não existe conservadorismo sem ação local, sem fortalecimento da comunidade onde se vive e dos laços que sustentam a cooperação voluntária. Isto é, se não formos conservadores na prática política – fora das redes sociais – carregando de sentido conservador o que se constrói como soluções para os problemas públicos locais,
padeceremos do mesmo vício dos revolucionários, que aguardam uma mudança total de sistema para que então possam agir livremente.
Precisamos urgentemente colocar em prática aquele que considero o mais importante slogan da direita. “Menos Brasília, mais Brasil” só existirá de fato com (I) a prática organizacional que transcenda as redes sociais; (II) a defesa de interesses coletivos que extrapolem a luta ideológica, mas que criem condições melhores para a localidade na qual vivemos; (III) o exercício dos direitos políticos que vá além do voto; (IV) a mentalidade de longo prazo apontando para um envolvimento que vá além do posicionamento sobre a polêmica palaciana do dia; (V) o esforço consistente e permanente que possa um dia resultar na instituição de uma série de valores propositivos; e, por fim, (VI) a capacitação para formar agendas políticas, ou seja, estabelecer procedimentos que sejam guiados por princípios muito claros, mas que sejam capazes de se adequar à realidade institucional em que vivemos.
É muito bom ver multidões querendo tomar as rédeas de seu destino, amando a pátria e acordando de um sono de alienação.
Porém, não é nada bom ver que o caminho vislumbrado é o mesmo de sempre: escolher alguém para construir esse caminho, de cima para baixo, sem que nós mesmos nos tornemos agentes políticos, a não ser quando estamos em meio a multidões indignadas
ou no momento solitário do voto.
A indignação deve encontrar guarida nas organizações que atuam na vida comunitária local, e pela sua prática orientar a elaboração de soluções. E são essas organizações que têm capacidade e prerrogativa democrática para influenciarem nas instituições. Mas essa influência só ganha legitimidade com o tempo e participação contínua.
A energia capaz de reunir multidões é diferente da necessária para influenciar instituições. É urgente que sejamos mais do que uma reunião eventual (e na maioria das vezes virtual) de indivíduos cheios de indignação, mas com pouca prática para acionar rotas eficientes de participação.
O conservadorismo é mais que uma ideia, é um método de ação política. E essa ação é essencialmente local. E nesse sentido, o que mudou?
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