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Ratinho Junior preferiu “salvar” base no Paraná a arriscar dupla derrota
Atento a esta premissa, sem decolar com a pré-campanha, vendo seu grupo político se desagregar e com sérios riscos de sofrer uma derrota eleitoral acachapante em casa, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), desistiu de concorrer à Presidência da República e disse que não disputará nenhum cargo nas eleições de 2026
Gazeta do Povo
25 de março de 2026
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Ratinho Junior preferiu “salvar” base no Paraná a arriscar dupla derrota
Atento a esta premissa, sem decolar com a pré-campanha, vendo seu grupo político se desagregar e com sérios riscos de sofrer uma derrota eleitoral acachapante em casa, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), desistiu de concorrer à Presidência da República e disse que não disputará nenhum cargo nas eleições de 2026
Gazeta do Povo
25 de março de 2026
Mais vale tentar manter um pássaro na mão do que ver dois saírem voando para longe e ficar de mãos abanando, já diria a sabedoria popular. Atento a esta premissa, sem decolar com a pré-campanha, vendo seu grupo político se desagregar e com sérios riscos de sofrer uma derrota eleitoral acachapante em casa, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), desistiu de concorrer à Presidência da República e disse que não disputará nenhum cargo nas eleições de 2026.
As informações foram divulgadas por Ratinho Junior no fim da tarde da última segunda-feira (23) — para surpresa de boa parte dos eleitores, analistas e até políticos considerados próximos dele. Oficialmente, algo que pesou na decisão de maneira definitiva foi a vontade de preservar a família do desgaste inevitável de uma campanha presidencial, além do argumento de se dedicar aos negócios do grupo após o término do mandato.
Nos bastidores, no entanto, a realidade pode ser mais complexa. De acordo com apuração da Gazeta do Povo junto a aliados e adversários políticos do governador, assim como na opinião de analistas e observadores do mundo político, ele pode ter sido pego de surpresa com as movimentações de correligionários e adversários na semana passada.
E, assim, ter se visto em um beco sem saída em cima da hora do prazo para a desincompatibilização do cargo executivo para concorrer no pleito deste ano, que é até o dia 4 de abril.
De acordo com políticos do PSD próximos ao presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, Ratinho Junior teria sido surpreendido com o anúncio de apoio do senador Flávio Bolsonaro (PL) à pré-candidatura ao governo do Paraná do senador Sergio Moro, o que incluiu até a mudança dele para o PL para que o ex-juiz possa seguir com o projeto eleitoral, consolidada nesta terça-feira (24).
Apesar de vir assistindo a um posicionamento consistente de Moro nas sondagens eleitorais para o governo paranaense desde o ano passado, Ratinho Junior não teria acreditado que ele encontraria abrigo no PL e muito menos apoio explícito da família Bolsonaro para um projeto político majoritário neste ano.
Impasse aumentou com recusa do próprio Ratinho Junior para compor chapa com Flávio
Com a recusa de Ratinho Junior em ser vice de Flávio, no entanto, e a manutenção de sua pré-candidatura presidencial, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) viu-se pressionado a romper a aliança do PL com o PSD no plano local, afirma um deputado federal do PL de São Paulo próximo ao senador e pré-candidato.
Com um concorrente disputando votos pela direita e sem opções de palanque no Paraná para a corrida presidencial, Flávio teria sido obrigado a se entender como Moro e a forçar o rompimento das duas siglas no plano estadual, recorrendo a um nome competitivo e assim ter como fazer uma campanha forte no estado.
Em pesquisa de intenção de voto divulgada pelo instituto IRG na última quinta-feira (19), Moro foi o mais citado nos três cenários estimulados testados, com no mínimo 40,8% das intenções de voto. Quem mais se aproxima do ex-juiz da Operação Lava Jato é o secretário paranaense do Desenvolvimento Sustentável e ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (MDB), que pontua com 19,7%.
Mesmo assim preterido pelo governador paranaense como cabeça de chapa do PSD na disputa estadual, poucos dias depois do anúncio da aliança entre Moro e Flávio, Greca deixou o PSD e assinou sua filiação ao MDB para concorrer ao governo do Paraná, à revelia do ex-parceiro político.
Foi a gota d’água para o governador rever seus planos e tentar reorganizar a base política em casa, de acordo com uma fonte próxima às lideranças do MDB, que acompanhou a filiação de Greca ao partido. Afinal, a pré-campanha eleitoral presidencial não decolou — ainda menos depois da consolidação de Flávio Bolsonaro como candidato da direita para enfrentar Lula.
Segundo um aliado do governador paranaense, mais valia tentar “salvar” a base política em casa — pegando um candidato pela mão e conduzindo-o ao longo da campanha, tendo em vista que o governador é bem avaliado pelos eleitores — do que sofrer uma dupla derrota, regional e nacional. Um observador próximo a Kassab comenta também que, independentemente de quem ganhar a eleição presidencial, o PSD estará no governo federal ocupando ministérios, mas não Ratinho Junior, que seria barrado em qualquer articulação pelo PT.
Guardar ativo e voltar mais forte em 2030 é uma estratégia ponderada, analisa cientista político
O cientista político Samuel Oliveira concorda com essa análise de que Ratinho Junior preferiu preservar o controle do seu território a entrar numa disputa presidencial sem tração consolidada. “O projeto nacional não amadureceu o suficiente para justificar perder o comando da sucessão local, ao mesmo tempo em que Moro e seu grupo político se tornaram uma ameaça ao legado dele no Paraná”, afirma Oliveira.
“A questão não é só Presidência, é a sucessão estadual, controle de máquina e sobrevivência política”, avalia o cientista político. “Com o apoio de Flávio Bolsonaro a Sergio Moro para o governo do Paraná e a filiação de Moro ao PL, Ratinho Junior passaria a correr o risco de deixar o cargo sem conseguir conduzir o sucessor. Para um governador jovem, com horizonte de 2030, isso é racionalmente inaceitável. Melhor sair agora, guardar o ativo do Paraná e voltar mais forte depois do que entrar num voo nacional incerto e perder a base.”
Na avaliação do economista, professor e estrategista político Luis Carlos Burbano Zambrano, a dificuldade de Ratinho Junior junto aos eleitores durante toda a evolução das pesquisas mostra não apenas a inviabilidade de um rápido crescimento do nome dele para o presente, mas de toda a chamada “terceira via”.
Última pesquisa Quaest divulgada neste mês de março, por exemplo, no cenário testado com Ratinho Junior, Lula somava 37% das intenções de voto até aquele momento, contra 30% de Flávio Bolsonaro. Ratinho Junior registrava 7%, enquanto Romeu Zema (Novo) aparecia com 3%, ambos tecnicamente empatados dentro da margem de erro.
“A desistência dele é pragmática, não tem espaço para um terceira via dentro da polarização que vivemos”, diz. “Além de Flávio Bolsonaro ter se consolidado como representante da direita, a candidatura de Moro é um risco real de perder o controle na base para um político não-alinhado com seu projeto de poder, que ainda pode ser longevo e durar muitas eleições”, afirma.
Desistência de Ratinho Junior foi encarada sem surpresa por parlamentares do PL
Do lado de parlamentares do PL, a notícia foi recebida com alegria mas sem surpresas. “A desistência do Ratinho Junior já era esperada, agora espera-se a desistência dos outros dois”, afirma o vereador paulistano Adrilles Jorge (PL), referindo-se aos governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e de Goiás, Ronaldo Caiado.
“O PSD e o Centrão como um todo deveriam aproveitar para fazer um contraponto claro ao Lula e apoiar o Bolsonaro agora. Ratinho Junior deveria inclusive apoiar a candidatura de Moro ao governo do estado, por que não?”, sugere o vereador.
O correligionário e deputado estadual por São Paulo Tenente Coimbra concorda. “As pesquisas comprovam que essa terceira via não tem viabilidade para concorrer”, afirma Coimbra.
“Ratinho Junior seria o o melhor quadro dentre os três postos pelo PSD, mas a direita não vai se reorganizar, porque ela já está organizada em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro”, diz o deputado estadual.
“Depois de uma gestão muito bem avaliada, Ratinho Junior corre o risco de não conseguir fazer o sucessor diante da candidatura do senador Sergio Moro, o que seria uma derrota e comprometeria seu capital político construído ao longo dos anos”, reitera a deputada federal Rosana Valle (PL), de São Paulo.
“Nenhum governador quer ter uma gestão bem avaliada e não conseguir fazer o sucessor. A candidatura do senador Sergio Moro ao governo do Paraná coloca em risco o grupo político de Ratinho Jr. no estado. Então, ele deve ter avaliado o cenário e entendido que seria mais estratégico permanecer no cargo, trabalhar a sucessão e manter seu grupo político forte em território paranaense. Se saísse para disputar a Presidência e perdesse o estado, poderia perder muito espaço político”, avalia a deputada.
Para um observador um pouco mais distante desta disputa em específico, a conjuntura política local deve ter pesado bastante na decisão. “É difícil analisar os motivos que levaram a essa desistência de maneira tão abrupta, mas a situação local deve ter pesado muito mesmo”, afirma Paulo Serra, presidente da executiva estadual do PSDB de São Paulo e vice-presidente nacional do PSDB.
“Existe um risco ao grupo político do governador. Agora, enquanto o PSD não define uma nova candidatura — ou não, o cenário eleitoral nacional não muda tanto. A partir do momento em que o partido desistir da disputa nacional, se desistir, teremos uma acomodação maior das forças políticas e do cenário eleitoral.”
Em nota enviada pela assessoria de imprensa à Gazeta do Povo, o PSD informa que a escolha de um novo pré-candidato presidencial deve ocorrer até o final deste mês.
“O PSD se mantém firme em sua decisão de apresentar aos brasileiros uma candidatura a presidente da República, que com certeza será a ‘melhor via’, contrapondo-se a essa polarização de propostas radicais que em nada contribuem para o que o Brasil precisa”, afirma o comunicado.
“Eduardo Leite e Ronaldo Caiado são governadores muito bem avaliados, com inúmeras realizações ao longo de suas vidas públicas; ambos têm apresentado seus projetos para o Brasil, que nortearão o plano de governo do candidato do PSD”, afirma o comunicado, que também elogia o governador do Paraná.
- Metodologia das pesquisas citadas:
– IRG ouviu 1.000 pessoas entre os dias 13 e 18 de março. A margem de erro é de 3,1 pontos percentuais, para mais ou para menos. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº PR-02737/2026.
– Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 6 e 9 de março. A pesquisa foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Registro no TSE nº BR-05809/2026.
Créditos: Gazeta do Povo
Foto: Átila Alberti/Tribuna do Paraná
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