Notícias Brasil

Sem Flávio no país, direita enfrenta desafio para reorganizar oposição a Lula

Derrotado nas eleições presidenciais, o parlamentar havia anunciado que organizaria a oposição ao governo, mas deixou o país após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seus passaportes e proibir sua saída do território nacional

Gazeta do Povo

28 de outubro de 2026

Facebook
WhatsApp
Telegram

Notícias Brasil

Sem Flávio no país, direita enfrenta desafio para reorganizar oposição a Lula

Derrotado nas eleições presidenciais, o parlamentar havia anunciado que organizaria a oposição ao governo, mas deixou o país após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seus passaportes e proibir sua saída do território nacional

Gazeta do Povo

28 de outubro de 2026

WhatsApp
Facebook

A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, confirmada pela Polícia Federal (PF) nesta terça-feira (27), abre um novo desafio para a direita: a reorganização da oposição diante do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Derrotado nas eleições presidenciais, o parlamentar havia anunciado que organizaria a oposição ao governo, mas deixou o país após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seus passaportes e proibir sua saída do território nacional.

Na avaliação do analista político Alexandre Bandeira, a ausência do senador pode abrir espaço para outras lideranças conservadoras, entre elas o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a senadora eleita e ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF).

Embora Flávio tenha concentrado na campanha presidencial parte das expectativas da direita para enfrentar o governo Lula, sua saída do país cria um obstáculo para a articulação presencial com parlamentares, partidos e aliados.

Bandeira pondera que o impacto político ainda depende de como Flávio reaparecerá publicamente e de sua capacidade de manter a mobilização eleitoral a distância. Na avaliação do analista, a política brasileira depende de contato direto, e a ausência prolongada do senador pode favorecer o surgimento de uma liderança fora da família Bolsonaro, mas alinhada a ela.

Segundo a doutora em Direito Público Clarisse Andrade, a situação pode enfraquecer a capacidade de articulação imediata do grupo ligado a Flávio Bolsonaro, mas a direita irá buscar novas lideranças para ocupar esse espaço. “O PL mantém uma estrutura parlamentar expressiva, enquanto governadores e lideranças de outros partidos começam a disputar o espaço deixado pelo senador”.

Nos bastidores do Legislativo, parlamentares evitam falar sobre o futuro da oposição, mas o clima é de incertezas e apreensão. Diante da saída de Flávio do país, aliados reforçaram a tese de perseguição política. O senador e a família desembarcaram nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28).

O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (RN), em entrevista coletiva na terça, afirmou que recebeu com surpresa a informação de que Flávio saiu do país. “Esperávamos que Flávio, com os 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da oposição”.

Apesar disso, Marinho afirmou que Flávio estava ciente do cenário do Brasil, com pessoas exiladas e com as situações completamente anormais. Como exemplo disso, ele citou a determinação de Moraes contra o senador logo após o fim do processo eleitoral.

O episódio envolvendo Flávio também acrescenta um novo capítulo ao conflito entre Moraes e a família Bolsonaro, que já envolve a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, restrições à sua prisão domiciliar e a condenação de Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos. Leia mais sobre essa questão no fim da reportagem.

Flávio pode conseguir liderar a oposição a distância

A possibilidade de Flávio manter o comando da oposição no exterior é uma das principais incógnitas do episódio. Bandeira reconhece que há exemplos internacionais de políticos que continuam influentes mesmo fora de seus países, mas considera que a dinâmica brasileira torna esse caminho mais difícil.

“Não existe vácuo no poder”, afirma o analista, ao avaliar que a ausência do senador pode abrir espaço para o crescimento de novas lideranças. Ele observa também que a política nacional exige negociação frequente com dirigentes partidários, parlamentares e representantes de diferentes setores.

Já o cientista político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UnB), afirma que as redes sociais permitirão que Flávio mantenha contato com os brasileiros e que divulgue seus posicionamentos. “Não existem mais fronteiras. Inclusive, não tem mais nem como censurar. Você precisaria de um nível de opressão muito alto para acabar com a liberdade das redes sociais, o que se assemelharia muito ao Estado de ‘1984‘, de George Orwell”, avalia Caldas.

Além dessa questão, Bandeira afirma que a maneira como Flávio reaparecerá e a narrativa que apresentará serão decisivas para avaliar o futuro de sua liderança. “Se conseguir preservar o apoio dos parlamentares e manter a mobilização de sua base, poderá continuar influente”, avalia.

Tarcísio pode ocupar espaço e Michelle deve ganhar relevância 

Por outro lado, analistas também avaliam que a ausência de Flávio Bolsonaro pode acelerar a reorganização da direita em torno de lideranças com mandato e capacidade de articulação política no país. Para Yolanda Tolentino, a tendência é de que o campo conservador deixe de depender exclusivamente do capital político da família Bolsonaro e passe a distribuir o protagonismo entre governadores, parlamentares e dirigentes partidários da direita.

Nesse cenário, Tarcísio de Freitas aparece como um dos nomes que podem ampliar sua influência, por reunir uma base política própria e experiência à frente do governo paulista.

Michelle Bolsonaro, por sua vez, também pode fortalecer sua atuação institucional no PL, enquanto as bancadas no Congresso assumem a coordenação imediata das iniciativas legislativas da oposição. Uma sinalização no sentido da ex-primeira-dama foi dada pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto. O dirigente do partido publicou em suas redes sociais uma foto com Michelle, nesta terça-feira (27), afirmando que tratou do futuro do partido e dos desafios da legenda.

A reorganização, entretanto, não significa uma ruptura com o legado do ex-presidente Jair Bolsonaro. O desafio será conciliar os eleitores mobilizados por ele com setores conservadores que defendem uma agenda mais ampla, incluindo economia, segurança pública e gestão do Estado.

Nesse sentido, Alexandre Bandeira também comenta que a saída de Flávio do Brasil pode favorecer o surgimento de uma liderança conservadora que não pertença à família Bolsonaro, mas que seja aliada dela. A evolução desse processo dependerá da capacidade dos demais nomes de construir alianças e apresentar uma agenda comum para enfrentar o governo Lula.

“Tarcísio tem uma base política própria, experiência à frente do maior estado brasileiro e interlocução com setores do empresariado e do centro político”, avalia o analista. Ele pondera, no entanto, que uma eventual ampliação de seu protagonismo dependerá da disposição de outros partidos e lideranças de construir uma agenda comum e de como ele próprio pretende atuar no cenário nacional.

O constitucionalista Alessandro Chiarottino avalia que há um risco de a família Bolsonaro perder, por ora, um pouco de protagonismo diante do silenciamento a que Jair Bolsonaro foi submetido, e pelo fato de Flávio ter deixado o país para fugir da perseguição de Moraes. Mas, mesmo nesse cenário, a base eleitoral dos Bolsonaro permanece forte.

Na mesma linha, o cientista político Marco Antônio Teixeira avaliou que a derrota presidencial enfraqueceu, mas não eliminou a influência da família no cenário político brasileiro.

Para Teixeira, “a ausência de Flávio pode acelerar uma disputa já existente dentro da direita com parlamentares e dirigentes que defendem fidelidade à família Bolsonaro e setores que desejam ampliar a atuação política para além do núcleo familiar”.

O histórico de decisões de Moraes contra a família Bolsonaro 

A relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e a família Bolsonaro é marcada por uma sequência de investigações, decisões cautelares e condenações que atingiram o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos Flávio e Eduardo.

O histórico remonta a 2019, quando Moraes foi designado relator do chamado inquérito das fake news, instaurado pelo então presidente do STF, Dias Toffoli. A investigação passou a apurar a disseminação de notícias falsas, além de supostas ameaças e ataques contra ministros da Corte. Nos anos seguintes, decisões do magistrado também atingiram aliados do ex-presidente e perfis nas redes sociais ligados a aliados de Bolsonaro.

Em setembro de 2021, durante as manifestações de 7 de setembro, Jair Bolsonaro intensificou os ataques a Alexandre de Moraes. Em discurso na Avenida Paulista, em São Paulo, afirmou que não cumpriria mais decisões do ministro, chamou-o de “canalha” e exigiu sua saída. No dia seguinte, o então presidente do STF, Luiz Fux, advertiu que o descumprimento de decisões judiciais pelo chefe de um dos Poderes poderia configurar crime de responsabilidade. Em 9 de setembro, Bolsonaro divulgou a chamada “Declaração à Nação”, redigida pelo ex-presidente Michel Temer. No documento, Bolsonaro atribuiu suas palavras ao “calor do momento”, negou a intenção de agredir os Poderes e reiterou respeito às instituições.

A Polícia Federal também investigou Jair Bolsonaro em dois casos sob relatoria de Moraes no STF: o da suspeita de fraude nos registros de vacinação contra a Covid-19 e o das joias e de outros presentes recebidos durante seu mandato. No primeiro, Bolsonaro e Mauro Cid foram indiciados em março de 2024, mas Moraes arquivou a investigação contra o ex-presidente em março de 2025, a pedido da PGR. No caso das joias, a PF indiciou Bolsonaro e outros investigados em julho de 2024 por suspeitas de associação criminosa, lavagem de dinheiro e apropriação de bens públicos. A apuração contou com informações da colaboração premiada de Cid. Em março de 2026, a PGR pediu o arquivamento do inquérito, e Moraes solicitou novo parecer sobre a participação do advogado Frederick Wassef antes de decidir.

Além disso, em fevereiro de 2024, Jair Bolsonaro passou a ser alvo de medidas judiciais no âmbito da investigação sobre uma suposta trama para impedir a posse de Lula em 2023.

Em julho de 2025, Moraes impôs novas medidas cautelares ao ex-presidente, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica, restrições de circulação e proibição de utilizar redes sociais, inclusive por intermédio de terceiros.

No mês seguinte, após considerar que houve descumprimento das restrições, Moraes decretou a prisão domiciliar de Bolsonaro. A decisão também proibiu o ex-presidente de receber visitas, exceto de seus advogados, e de utilizar celulares, inclusive aparelhos de terceiros. Posteriormente, o ministro autorizou visitas de familiares, mas manteve restrições ao uso de celulares.

A Primeira Turma do STF condenou Jair Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado em setembro do ano passado. Moraes foi o relator da ação penal.

Neste ano, após o ex-presidente passar a cumprir pena em regime fechado e posteriormente obter prisão domiciliar temporária por razões de saúde, o ministro manteve restrições de comunicação e fiscalização judicial. Em julho, Moraes suspendeu por 90 dias as visitas de Flávio Bolsonaro ao pai. A medida foi tomada depois que o senador publicou nas redes sociais uma carta escrita por Jair Bolsonaro devido à proibição de o ex-presidente utilizar as redes sociais, inclusive por intermédio de terceiros.

Além de Jair, Eduardo Bolsonaro também passou a ser alvo de investigação no STF. Em maio de 2025, Moraes determinou a abertura de inquérito, a pedido da PGR, em razão da atuação do então deputado nos Estados Unidos e das iniciativas para pressionar autoridades brasileiras durante o julgamento do pai.

Em junho de 2026, a Primeira Turma do STF condenou Eduardo a quatro anos e dois meses de prisão, em regime inicial semiaberto, por coação no curso do processo. O colegiado entendeu que ele havia atuado para interferir no julgamento de Jair Bolsonaro. A condenação também resultou em declaração de inelegibilidade e perda do cargo público de escrivão da Polícia Federal.

Após as eleições de 2026, Flávio Bolsonaro passou a ser alvo de uma nova medida judicial determinada por Alexandre de Moraes. Em decisão cujo conteúdo integral não foi divulgado, o ministro determinou que o senador entregasse seus passaportes à Polícia Federal e o proibiu de deixar o país. Também vetou seu contato com o advogado Willer Tomaz, investigado no mesmo contexto.

Flávio não entregou os documentos no prazo determinado, e a Polícia Federal cancelou seus passaportes. Nesta terça-feira (27), a PF confirmou que o senador deixou o Brasil. Flávio Bolsonaro passou pela Argentina e desembarcou com a família nos Estados Unidos nesta quarta-feira (28).

Créditos: Gazeta do Povo

Foto: Andre Borges/EFE

Últimas Notícias

Avião que levou Flávio a Miami fez bate-volta de Buenos Aires ao Rio 5 dias antes do 2º turno

O histórico mostra que houve um bate-volta: a aeronave pousou no Aeroporto do Galeão às 13h09 e saiu em direção à capital argentina pouco mais de três horas depois, voltando ao Aeroparque Jorge Newbery

Sem Flávio no país, direita enfrenta desafio para reorganizar oposição a Lula

Derrotado nas eleições presidenciais, o parlamentar havia anunciado que organizaria a oposição ao governo, mas deixou o país após o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a entrega de seus passaportes e proibir sua saída do território nacional

STF nega existência de busca e apreensão contra Flávio Bolsonaro

O Supremo Tribunal Federal (STF) veio a público para negar que exista ou tenha sido cumprido um mandado de busca e apreensão pela Polícia Federal (PF) contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ou endereços ligados a ele

Siga nos

Leia também

O histórico mostra que houve um bate-volta: a aeronave pousou no Aeroporto do Galeão às 13h09 e saiu em direção à capital argentina pouco mais de três horas depois, voltando ao Aeroparque Jorge Newbery

O Supremo Tribunal Federal (STF) veio a público para negar que exista ou tenha sido cumprido um mandado de busca e apreensão pela Polícia Federal (PF) contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ou endereços ligados a ele

O Natal de Curitiba 2026 começa em 24 de novembro, oferecendo 44 dias de programação com mais de 150 atrações espalhadas por toda a cidade. Promovido pela prefeitura e parceiros, o evento conta com espetáculos musicais, shows de luzes e decorações temáticas

Flávio Bolsonaro estava em um avião executivo que partiu da cidade argentina de Puerto Iguazu na noite de terça-feira (27) após seus aliados terem realizado uma operação de contrainteligência ao longo do dia, em que afirmavam que ele já tinha partido para os Estados Unidos

Com cerca de 80% dos votos apurados, a eleição em Israel segue indefinida, impasse que pode levar a um novo pleito

Uli Jon Roth, guitarrista alemão que integrou os Scorpions nos anos 70 e que depois ajudou a criar o estilo que une o rock pesado à música clássica, voltará a São Paulo em 22 de janeiro de 2027, no Carioca Club, como show único no país na turnê Total Inspiration

A estatal terá prazo de 15 anos para quitar o empréstimo, com três anos de carência. Se for privatizada, o saldo devedor restante deve ser pago antecipadamente

Rolar para cima

Inscrição feita com sucesso!