Uma das grandes deficiências da cultura brasileira é, sem dúvida, o curtoprazismo. Não somos de planejar. Vamos dando um jeito e os dias vão passando um após o outro. Até podemos pensar em um ano para frente, principalmente se pararmos para pensar logo no início do ano, mas, sabemos, no segundo dia já deixamos a vida nos levar. Claro, se estivermos muito envolvidos com política até conseguimos imaginar algo que envolva os próximos quatro anos, mas, também por contarmos com a memória curta do eleitorado, entendemos que uns três meses talvez sejam o teto mesmo.
Provavelmente você indague que empreendedores têm por obrigação planejar. Porém, em uma estrutura econômica, política e social de incertezas como a nossa, para a maioria a visão do horizonte é permanecer com as portas abertas e conseguir pelo menos fechar a próxima folha de pagamento.
É compreensível, portanto, que fiquemos presos à armadilha do curto prazo. Porém, mesmo as elites que possuem certa estabilidade são como folhas levadas pelo vento – embora sentem à mesa dos mandatários do momento, para tratarem da manutenção de sua posição, sustentada muitas vezes por um mutualismo com o poder político que, apesar de transitório, garante que a elite seja sempre a mesma.
Todavia, o problema é muito mais profundo do que a falta de imaginação sobre o futuro, ou sobre não tirar um tempo para definir os objetivos que orientam determinada estratégia. Nosso defeito maior é a falta de clareza sobre causa e efeito. E eu não pretendo falar aqui sobre metodologias de planejamento para os negócios, mas, de como é normal entre nós, desde o povo até a elite, achar que o jeito de entender e de fazer as coisas brota sem nenhuma relação com o desenvolvimento intelectual precedente.
Aliás, é tão estranho para nós brasileiros desenvolver ideias e uma intelectualidade robusta antes de partir para ação, que seguidamente vemos pessoas acusando “o outro lado” – seja ele qual for – de ter “preparado o terreno” e “espalhado suas ideias” antes de conseguirem hegemonia para atuarem desimpedidamente e, vejam só que surpresa, “imporem sua visão de mundo”!
No fundo sabemos que as etapas são estas, de desenvolver ideias, absorvê-las e então agir em um terreno onde tais mentalidades são reconhecidamente legítimas. Mas, a inércia cultural nos arrasta para a esperança passiva de que primeiro ocorram mudanças econômicas, políticas e sociais, pois acreditamos que depois disso as ideias vão naturalmente se desenvolver apropriadamente. Como eu disse, trata-se de uma profunda incompreensão sobre causa e efeito.
A nossa incapacidade de nos dedicar ao desenvolvimento intelectual prévio à ação política fica evidente pela impressão que muitos têm, de que os grupos sociais que desenvolveram teorias e estudos para orientar suas ações políticas são ardilosos e capazes de tudo, só porque fizeram isso com eficiência. E tudo se reforça pela soma da nossa pressa em resolver as coisas hoje mesmo e a preguiça de iniciar um processo de longo prazo.
As ideias vêm primeiro, mesmo para alguém que acredite que a realidade material guie o mundo. Vejamos o maior materialista de todos os tempos. Karl Marx, pensando e escrevendo na Biblioteca Real de Londres, deveria parecer um tanto patético para pessoas práticas, mas, aquele trabalho impactou – negativamente, penso eu – uma parte considerável da humanidade, economias e a política mundial. Até chegar à ponta de um fuzil, o mal foi engendrado intelectualmente, resultando em conteúdos que precisaram ser refutados posteriormente. Ou seja, não foi por acaso, não foi sem esforço intelectual e nem sem profundidade filosófica. Milhões de pessoas tiveram suas vidas transformadas – repito, para pior – por consequência de uma atividade intelectual.
Evidentemente que isso não significa que estudar situações e desenvolver teorias faz mal por si só. Apesar de que, me parece às vezes, o brasileiro médio tenha certo medo do que o pensamento possa causar, o que explicaria a distância segura que se mantém da vida intelectual.
Para não agravar esse preconceito em relação à erudição, pode ser útil lembrar às nossas classes produtivas, que repetem slogans liberais, mais porque detestam os impostos do que por conta de alguma consciência sobre funcionalidades e potenciais da teoria Liberal, que Ronald Reagan e Margareth Tatcher, por exemplo, não foram políticos que prescindiram de boa intelectualidade e excelente teoria na base de suas ações.
É de causar espécie que o empresariado liberal tupiniquim realmente espere que apareça um político que acabe com a política. Desejam ardentemente alguém que assuma as rédeas do Estado, para em seguida destruí-lo, acabando com seu próprio poder. Fico fascinado com a capacidade de gente assim se dar tão bem financeiramente. O mercado, de fato, é algo intrigante, por ser capaz de permitir prosperarem pessoas que não conseguem entender nada além de seus nichos muito exclusivos de atuação.
Mesmo uma mentalidade prática, que seja capaz de estabelecer agendas públicas e mover burocracias, é fruto de muito conteúdo intelectual produzido, financiado e absorvido pelas elites dirigentes. É intelectual a base que pressiona políticas públicas eficientes, sendo o alcance dessas políticas resultado de uma infinidade de esforços que disseminam conhecimento.
Então, precisamos questionar. Será que a gente se importa mesmo com conhecimento? Será que a gente leva isso em conta na hora de opinar e agir na vida pública? Ou será que é só pose de quem acha que já sabe tudo e apenas tá esperando o Estado despejar um ensino técnico para seus futuros peões?
É surpreendente como aqueles que criam riquezas neste país também esperam por consequências sem antes desenvolver as ideias.
Precisamos de uma elite que analise a consistência de suas fontes de conhecimento, e se engaje em produzir e fortalecer o arcabouço de ideias que sustenta suas visões de mundo.
Como disse Richard Weaver, em seu clássico As ideias têm Consequências, a vida do ser humano moderno é “uma prática sem teoria”. E, não se engane, isso não é bom, pois “a especialização aperfeiçoa um homem apenas parcialmente; um homem que se aperfeiçoa parcialmente é alguém mal formado, e um homem mal formado é a última pessoa que pensaremos em ter como governante”. Teorias não são frescura, mas meios para organizar os dados, informações e ideias que orientam a vida prática. Se você não quer se dedicar a isso, fique atento, pois quem se dedicou a disseminar intelectos e mentalidades – ainda que sejam perniciosos – dominarão também a prática à qual você se apega como se fosse a única coisa importante. E isso alcançará desde a forma como você cria seus filhos até o jeito que você produz.
Que a classe produtiva deste país seja feita apenas de pessoas muito práticas é, sim, um problema. Weaver alerta que “quanto mais o homem se preocupa com detalhes, menos consegue compreendê-los”, de modo que não temos simplesmente lideranças práticas, mas, na verdade, superficiais.
Últimas Notícias
Pai de Vorcaro pede a Fachin que destrave processo e reveja prisão preventiva
O caso Master era relatado pelo ministro André Mendonça, mas Fachin encaminhou o processo à presidência da Corte diante da crise interna no STF, paralisando a tramitação
Após gerar R$ 3,5 bilhões em performance fiscal para transportadoras, Rumo Brasil mira triplicar sua carteira de clientes e dobrar o faturamento em 2026
Companhia, que atende oito das dez maiores empresas do agronegócio do país, ampliou a atuação para apoiar na adaptação à Reforma Tributária
Primavera dos Museus movimenta espaços culturais de Cascavel
Programação "Museus para Todas as Pessoas" reúne acessibilidade, música, cinema, dança e memória
Siga nos
Leia também
O caso Master era relatado pelo ministro André Mendonça, mas Fachin encaminhou o processo à presidência da Corte diante da crise interna no STF, paralisando a tramitação
O ministro afirmou que o Judiciário vive seu momento mais corrupto, gerando reações das entidades que defendem a integridade da categoria e criticam a generalização de casos que deveriam ser tratados de forma individual
A fala ocorre um dia depois de Cármen Lúcia pedir desculpas ao povo brasileiro durante o julgamento realizado pelo STF na terça-feira (15). A sessão terminou sem uma conclusão sobre o relatório que aponta uma relação entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes
O petista disse que Flávio tenta relacioná-lo ao ministro e afirmou que a reação contra Moraes estaria ligada à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e às decisões relacionadas aos atos de 8 de janeiro de 2023
A manifestação foi uma reação à sessão extraordinária que terminou sem uma definição sobre investigar ou não o ministro Alexandre de Moraes
Em outra postagem Lula escolheu a imagem de um cemitério durante a pandemia e em outra, uma fila de pessoas em uma agência de emprego, com duas fotografias de Bolsonaro para vincular os assuntos
A reunião ocorre em meio à estratégia do petista de ampliar a aproximação com o eleitorado evangélico, segmento no qual pesquisas frequentemente apontam vantagem de Flávio Bolsonaro (PL)