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Inovação e cultura: o vasto fluxo de ideias
Um novo comportamento só é adotado – isto é, uma cultura só muda – se forem adotados meios eficientes para a inovação
Amir Kanitz
10 de abril de 2024
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Inovação e cultura: o vasto fluxo de ideias
Um novo comportamento só é adotado – isto é, uma cultura só muda – se forem adotados meios eficientes para a inovação
Amir Kanitz
10 de abril de 2024
Viver na Era da Informação nos faz atribuir à propagação de ideias, por si só, a capacidade de mover o mundo. Mas, não é bem assim.
O vasto fluxo de ideias, opiniões e versões disponíveis e acessíveis ocorre por conta da diminuição dos custos da informação. E tudo o que custa pouco é rapidamente banalizado. As ideias vão longe, é verdade, mas não significa que sejam capazes de mudar automaticamente comportamentos.
Se queremos de fato inovar, ou seja, mudar certos paradigmas, influenciando a adoção de novos comportamentos (ou mesmo restaurar o que se imagina ter se perdido), será necessário complementar a informação com outros tipos de abordagem.
Primeiramente, temos de admitir que o acesso à informação proporciona maior formação de consciência (conscientia é, por definição, o conhecimento de algo compartilhado com alguém). Por outro lado, se estivermos falando de uma transformação mais abrangente, de forma a promover mudanças organizacionais em grupos e até na sociedade, dependemos de que um número considerável de pessoas aprendam novas competências, desenvolvam novas rotinas e se adaptem a novos procedimentos. Ou seja, depende não apenas de ideias encontrando pessoas, mas de transferir conhecimentos de pessoas para grupos, e daí para setores da realidade que têm funções práticas na nossa vida.
Um novo comportamento só é adotado – isto é, uma cultura só muda – se forem adotados meios eficientes para a inovação.
No livro Mudança: como as grandes transformações acontecem, Damon Centola desenvolve seu pensamento acerca da inovação com base nas barreiras que precisam ser superadas para que se possa inovar de fato.
Centola aponta quatro eixos fundamentais para convencer as pessoas a adotarem mentalidades e práticas inovadoras: coordenação, credibilidade, legitimidade e empolgação. Algumas inovações só são atraentes se as pessoas a usarem juntas, como no caso de uma rede social, que só vale a pena se muitas pessoas estiverem utilizando, e por isso depende de coordenação para ser adotada. Outras inovações dependem mais de credibilidade, pois se deparam com o ceticismo em relação à efetividade ou à segurança para sua adoção, principalmente no caso de serviços ou produtos altamente tecnológicos. Na maioria das vezes as inovações requerem aprovação social antes de serem adotadas, e por isso a legitimidade é uma exigência para diminuir o risco de constrangimento ou de uma reputação manchada. E, dependendo da expectativa em relação ao número de pessoas e à velocidade que se deseja que a inovação seja adotada, a empolgação será fundamental para as pessoas estarem emocionalmente energizadas umas pelas outras, se engajando para atitudes inovadoras.
Com base nisso notamos alguns limites para a mera circulação de informações, pois mais importante do que a aderência da mensagem é o reforço social que ela recebe. Esse reforço, contido nos quatro eixos descritos acima, é essencial para que, além de difundir qualquer nova ideia, seja criada uma base para a estabilidade organizacional, que por sua vez sustenta a continuidade da transferência de conhecimento ao longo do ciclo da inovação proposta.
É assim que a inovação ultrapassa a simples adoção de novas ideias e tecnologias, indo além e criando novas culturas organizacionais.
Portanto, para ampliar a inovação temos que romper várias bolhas, pois se trata de mudar normas. E a dificuldade para mudar uma norma social é similar ao obstáculo para se aprender uma nova língua: requer uma ruptura com algo que “funciona”, bem ou mal. Requer substituir algo familiar e natural por algo novo e estranho.
A lição fundamental a ser aprendida aqui é: em qualquer tipo de inovação o verdadeiro desafio não é desenvolver a solução, mas convencer as pessoas a adotá-la. A mudança no jeito de olhar os problemas e suas soluções precisa ser tanto reconhecível quanto inovadora.
Portanto, nossa atenção deve recair sobre as formas de contágio que aceleram a inovação ao permitir que novas ideias se instalem e depois decolem.
A verdadeira e profunda mudança de pensamento exige que se desvie a atenção do objetivo de espalhar informações e a direcione para o objetivo de propagar normas – com coordenação entre grupos heterogêneos; reconhecimento de sua validade; credibilidade em relação a sua eficiência e engajamento além da bolha em que se vive.
Há algum tempo foi consolidada a suposição de que, se as pessoas receberem as informações corretas o restante se resolverá por si só. Isso é falso, pois as pessoas podem até acreditar em tudo que escutam, mas não significa que necessariamente adotem novos comportamentos com base nisso. Para termos novos procedimentos, rotinas e competências há uma resistência natural. E é somente se superarmos isso que inovamos, impactando organizações e a própria cultura.
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