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Bets já pesam mais no endividamento das famílias do que juros e crédito, mostra estudo
Um estudo divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School mostra que as apostas já aparecem como principal fator associado ao endividamento familiar no Brasil
Gazeta do Povo
22 de abril de 2026
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Bets já pesam mais no endividamento das famílias do que juros e crédito, mostra estudo
Um estudo divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School mostra que as apostas já aparecem como principal fator associado ao endividamento familiar no Brasil
Gazeta do Povo
22 de abril de 2026
Quase metade da renda dos brasileiros está comprometida em dívidas com instituições financeiras, segundo o Banco Central (BC). Há seis anos, em janeiro de 2019 – antes da legalização das apostas online (bets) –, esse percentual era de 39%.
Um estudo divulgado em março pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School mostra que as apostas já aparecem como principal fator associado ao endividamento familiar no Brasil. Esse impacto é quase duas vezes maior do que o dos juros, que estão em um dos maiores níveis da história, e do crédito.
O estudo aponta que para cada aumento de 1% em apostas, o endividamento cresce 0,23%. Para especialistas ouvidos pela reportagem, o número revela um novo risco de crédito que supera os fatores tradicionais de mercado.
Perfil e comportamento dos apostadores brasileiros
O mercado das bets no Brasil cresceu fortemente desde a legalização, em 2019. Em 2025, as apostas online se consolidaram como fenômeno econômico de escala massiva: 26,4 bilhões de acessos aos sites de apostas e faturamento de R$ 50,9 bilhões, segundo dados da plataforma Aposta Legal, que monitora o segmento.
Essa escala posiciona o mercado de bets como o segundo destino mais visitado da internet brasileira, atrás apenas do Google. “Não é um fenômeno de nicho; tornou-se cultura de massa, com crescimento de interesse superior a dez vezes em quatro anos”, afirma Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Ibevar e professor da FIA.
Um estudo especial realizado pelo Banco Central a pedido do Senado, publicado em agosto de 2024, traçou um perfil dos apostadores brasileiros. Entre eles, a maior concentração ocorre na faixa dos 20 aos 30 anos.
O gasto médio desses jovens é de aproximadamente R$ 100 mensais. Já entre os usuários com mais de 60 anos, o gasto médio ultrapassa os R$ 3 mil por mês, com potencial de comprometer a segurança financeira na aposentadoria.
O estudo norte-americano aponta que a persistência nas apostas leva à alavancagem financeira. Uma vez que o indivíduo realiza a primeira aposta, a probabilidade de continuar permanece elevada, entre 50% e 60%.
Padrão americano de consumo de bets já se replica no Brasil
A experiência norte-americana serve como alerta. Em 2018, a Suprema Corte dos EUA derrubou a proibição de apostas esportivas. O volume apostado saltou de US$ 1,1 bilhão por mês, em 2019, para US$ 13,8 bilhões em 2025 – crescimento de 1.154%, destaca um estudo publicado por pesquisadores da Universidade de Wisconsin, da Universidade do Kansas e da Brigham Young University.
O Brasil está replicando esse padrão em tempo real, com a mesma velocidade observada nos EUA, constatam o Ibevar e a FIA Business School. Com base no estudo americano, o relatório técnico das duas instituições aponta que a legalização das apostas reduziu os depósitos em corretoras americanas em cerca de 14%.
“Esse desvio é permanente, não temporário. É uma mudança no comportamento financeiro das famílias”, destaca Felisoni.
Nos EUA, para cada dólar depositado em aplicativos de apostas, reduzem-se os depósitos em contas de corretoras em cerca de 20 centavos, sugerindo substituição de investimentos por apostas.
Bets afetam orçamento mensal, investimentos e crédito
Para o presidente do Ibevar, as apostas online não apenas disputam espaço no orçamento das famílias, mas também reduzem sistematicamente os depósitos em investimentos e aumentam a dependência de crédito para despesas correntes. “Elas resultam em um escoamento sistemático que obriga o uso de crédito para despesas correntes”, afirma Felisoni.
“A conclusão do estudo é clara: o crescimento acelerado do mercado de bets não é só uma questão regulatória ou tributária. Trata-se de um fator macroeconômico com potencial de ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico no médio e longo prazo”, prossegue.
O cenário mais crítico envolve beneficiários do Bolsa Família. Segundo o estudo do Banco Central de agosto de 2024, 5 milhões de beneficiários apostaram, enviando R$ 2 bilhões para plataformas naquele mês — equivalente a 1% do orçamento anual do programa (R$ 245 bilhões).
Arrecadação de impostos com bets pode ser ilusão fiscal
Apesar dessa drenagem, o governo arrecadou R$ 8,82 bilhões com jogos de azar e casas de apostas no acumulado de janeiro a novembro de 2025, segundo a Receita Federal. Contudo, essa receita tributária pode ser uma ilusão fiscal.
De acordo com pesquisadores americanos, os ganhos imediatos do estado tendem a ser parcialmente anulados pela redução de impostos sobre ganhos de investimento, já que a migração do capital de contas de investimento para apostas reduz os depósitos em corretoras, significando menos Imposto de Renda.
Em paralelo, há tendência de aumento de custos públicos, com o estresse financeiro das famílias – saúde mental, programas de insolvência, assistência social – tendendo a crescer, anulando assim os ganhos tributários.
Créditos: Gazeta do Povo
Foto: Fernando Jasper/Gazeta do Povo
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