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Economia
Brasil rumo a Venezuela?
Vimos um crescimento de mais de vinte e oito por cento nos cancelamentos de contratos de imóveis no Brasil no primeiro semestre, somando mais de dois bilhões de reais. Isso acende o sinal de alerta
João Fernando Silva
24 de setembro de 2026
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Brasil rumo a Venezuela?
Vimos um crescimento de mais de vinte e oito por cento nos cancelamentos de contratos de imóveis no Brasil no primeiro semestre, somando mais de dois bilhões de reais. Isso acende o sinal de alerta
João Fernando Silva
24 de setembro de 2026
Vimos um crescimento de mais de vinte e oito por cento nos cancelamentos de contratos de imóveis no Brasil no primeiro semestre, somando mais de dois bilhões de reais. Isso acende o sinal de alerta. As pessoas compram o imóvel na planta, vão pagando o valor residual ao longo de três anos e, quando chega a hora de assumir a propriedade, vem o choque.
O comprador tenta o financiamento no banco e não consegue aprovação. A taxa de rescisão disparou porque o endividamento das famílias passa de oitenta por cento e a renda está comprometida. O problema atinge imóveis de médio a baixo padrão, no alto padrão isso não ocorre, mas incorporadoras de capital aberto como a Direcional viram mais de setenta por cento do seu estoque ser afetado por distratos nos últimos meses, gerando um impacto gigantesco.
A taxa de juros elevada sufoca o cidadão no dia a dia e encarece o financiamento. Isso se soma à falta de educação financeira no Brasil, gerando famílias endividadas. A construção civil é um dos setores que mais geram empregos no país e vemos uma desaceleração nítida. Como eu também construo imóveis para vender, sinto isso na pele.
Tenho uma casa do programa Minha Casa Minha Vida pronta há um ano no mercado e até agora não vendi. Conversei com outros profissionais do ramo e o mercado está travado. Eu mesmo vendi um apartamento recentemente e tomei a decisão de não assumir nenhum outro compromisso nem correr riscos enquanto não vender essa casa.
As instituições financeiras já projetavam maiores restrições à oferta de crédito imobiliário por receio do aumento da inadimplência e baixa tolerância ao risco. O banco não quer arriscar e o cidadão não consegue financiamento. Mas por qual razão o banco emprestaria dinheiro para o cidadão se o próprio governo pega dinheiro emprestado dos bancos todos os dias. O risco de calote do governo é menor porque ele pode emitir dívida para pagar o próprio banco.
Trata-se do efeito crowding out, que ocorre quando o Estado drena os recursos do mercado financeiro. Com menos recursos, o crédito fica caro e inacessível para quem produz.
Além disso, a poupança vem sendo esvaziada. As famílias com a corda no pescoço foram obrigadas a sacar suas economias da poupança para fechar as contas do mês, gerando um saldo negativo de cento e trinta e seis bilhões de reais para a captação dos bancos. Esse movimento tira o financiamento barato que atendia a habitação popular. O crédito deveria fomentar a sociedade para criar riqueza, mas o Estado compete por esse dinheiro para colocar onde não gera valor. Em vez de investir em infraestrutura como fizeram China, Coreia do Sul e Japão, o governo gasta com campanhas e financiamento partidário.
Nossos ministros não administram o Estado como se administra a própria casa ou uma empresa. O negócio deles é gastar, gastar e gastar. Uma empresa no Brasil paga em média trinta e quatro por cento de sua receita em impostos para ter um lucro líquido de oito por cento. O governo ganha três vezes mais do que o empresário que está se matando de trabalhar e correndo riscos. A matemática simplesmente não fecha.
Para completar esse cenário, a inversão de valores promovida pelo Estado é impressionante. Tivemos o caso recente da rede de lojas de conveniência multada em dois milhões de reais em um processo porque foi assaltada e isso causou traumas nos funcionários. Pagamos impostos para ter segurança pública, que é a primeira obrigação
do Estado. Contudo, o Estado falha na segurança e depois aplica uma multa milionária no empresário que foi roubado. Essa mentalidade destrói o ambiente de negócios.
Tudo isso acelera um fenômeno chamado Economia K. A base da pirâmide social fica cada vez mais pobre, a classe média desaparece e os mais ricos acumulam mais patrimônio. Não é teoria da conspiração, é o mercado em movimento. Esse caos acaba criando oportunidades para quem tem dinheiro em mãos, permitindo comprar imóveis com descontos enormes de quem precisa vender com urgência.
Quem cria essa anomalia é o Estado, não o grande empresário que está apenas jogando o jogo. A emissão desenfreada da dívida vai travar o sistema, e no final nós vamos pagar essa conta.
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