Política

Eliminar o mal da política

O pensamento e as ações deles são ruins, então, se nós tivermos poder será o nosso pensamento conduzindo a sociedade

Amir Kanitz

1 de novembro de 2023

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Eliminar o mal da política

O pensamento e as ações deles são ruins, então, se nós tivermos poder será o nosso pensamento conduzindo a sociedade

Amir Kanitz

1 de novembro de 2023

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Ideologia – seja lá qual for – é um conjunto de ideias que pretendem explicar como o mundo funciona e também como deveria funcionar, indicando os meios que seriam úteis para alcançar o fim projetado. A ideologia nos faz enxergar a realidade como um bloco único e simplificado, tipo: “o pensamento e as ações deles são ruins, então, se nós tivermos poder será o nosso pensamento conduzindo a sociedade, logo as ações serão boas e os resultados também”. O problema é que essa visão simplificada das coisas é insuficiente para sociedades modernas e complexas, pois nunca um grupo terá todo o poder, o tempo todo e em todas as áreas. No best- seller O fim do poder, Moisés Naím realiza uma profunda análise sobre o potencial de dominação neste início de século, indagando com precisão que hoje o poder está mais fácil de obter, mais difícil de utilizar e mais fácil de perder.
Com efeito, se a expectativa for tirar “eles” do poder para finalmente desfrutarmos de um mundo melhor, somente haveria algum êxito se eliminássemos todos os que identificamos como sendo “eles”. Nem é preciso falar que isso é impraticável, totalitário e, por fim, desastroso, pois a história dá suas voltas e derruba esse tipo de mentalidade logo ali na próxima curva – apesar do
custo imenso para se provar e superar os efeitos maléficos da simplificação ideológica. Portanto, se você classifica todos os problemas do mundo como sendo causados pela ação de grupos
ideológicos contrários a você, o seu destino é ficar cada vez mais frustrado, pois “eles” continuarão existindo, e o “nós” do qual você faz parte continuará sem todo o poder que acredita
ser necessário para melhorar as coisas.
A esperança de triunfo ideológico forja uma postura mais ou menos assim: “quando ninguém mais estiver atrapalhando, nós vamos conseguir fazer o que é certo”. Daí ninguém faz nada a não ser pregar o aniquilamento da ideologia adversária como solução para tudo. Trata-se de uma mentalidade tribal e, na prática, paralisante, pois transfere a expectativa para uma esfera além da capacidade de ação de qualquer indivíduo ou grupo.
Se pensarmos com o cérebro e não com o fígado, logo percebemos que não há como os problemas políticos acabarem. Ora, a política é justamente a via para o tratamento – não necessariamente solução – de problemas coletivos. E desse modo é necessário compreender que a) há certos problemas para os quais não existem soluções completas ou mesmo conhecidas, mas apenas paliativos; b) há muitos problemas que não possuem culpados claramente identificáveis, pois são entraves culturais, históricos ou de atraso econômico, que só percebemos em relação a outras sociedades com as quais muitas vezes nem podemos nos comparar; c) e também há os problemas – aí sim – resultantes da ação de determinadas ideologias que construíram suas “soluções” de forma hegemônica, e para superarmos esses problemas não basta o desejo de eliminar quem comunga de tais ideologias, mas demanda um trabalho árduo de substituição dos modos estabelecidos por elas. Nos três casos o que precisamos é construir soluções para problemas reais, e não o esforço repetido de criarmos sumários de culpas que nos coloquem na posição de virtuosos condenando os monstruosos.
Acredito que a perspectiva política – seja coletivista, liberal, progressista ou conservadora – que tenha como principal atividade procurar culpados e execrá-los, não permite uma análise sensata dos problemas públicos e muito menos proporciona a implementação correta de soluções.
O jogo de acusações pode até formar movimentos e reações, mas não forma agendas. Uma agenda política consiste em organizar demandas sociais reais, de modo que possam se encaixar em processos institucionais e receber tratamento dos entes públicos com efetividade.
É compreensível que as pessoas expressem cansaço e indignação frente aos desafios que vivemos. Porém, quem estiver disposto a encarar os problemas e resolvê-los deverá fazê-lo com uma disposição mental mais madura, ou seja: a) entendendo a extensão dos problemas – e isso vai muito além de encontrar culpados; b) construindo com inteligência as soluções – que inclui participar da elaboração, articulação e execução dessas soluções, negociando com várias propostas e ideias conflitantes; e c) manejando os processos de maneira institucional e ordenada – o que claramente ultrapassa a natureza da política puramente eleitoral.
É verdade que o brasileiro está menos indiferente à política em comparação com o que já foi. Mas isso não significa que esteja mais instruído ou capacitado para buscar soluções para questões públicas, pois a maioria avalia mal os problemas e crê que uma baldeação ideológica resolveria tudo.
Pode ser desafiador, mas precisamos encarar a realidade: sempre haverá disputas políticas e interesses conflitantes; os grupos e ideias que você não aprova continuarão existindo e exercendo algum tipo de influência; não há perfeição social, apenas melhoria, e você precisa trabalhar para essa melhoria desde já, para em algumas décadas colher os frutos; vontade de melhorar a sociedade todos têm (mesmo o seu inimigo, que pode até estar usando ideias e métodos errados, mas acredita que do jeito dele será melhor), mas o que falta é conhecimento e esforço coordenado para empreender as melhores soluções. A política é um continuum: nada se inicia do zero e nada é definitivo. E isso serve para o bem e para o mal da política.

Amir Kanitz
Cientista Social e Sociólogo

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