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Mais que mudar, precisamos nos adaptar
Não é à toa que um dos conceitos mais utilizados nos últimos anos foi disrupção
Amir Kanitz
22 de dezembro de 2023
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Mais que mudar, precisamos nos adaptar
Não é à toa que um dos conceitos mais utilizados nos últimos anos foi disrupção
Amir Kanitz
22 de dezembro de 2023
Fim de ano sempre vem carregado de esperança por mudanças. Mas, já tem algum tempo que não desejamos apenas mudanças, e sim rupturas. Passamos do ponto em que se falava que “alguma coisa nova precisa acontecer”, para agora vermos muita gente exclamando que “tudo precisa mudar!”.
Não é à toa que um dos conceitos mais utilizados nos últimos anos foi disrupção. Nada conservador, o termo disruptivo representa o efeito de algo que rompe padrões. Geralmente relacionado a tecnologia, pode ser um produto, serviço ou sistema que interrompe e altera o fluxo considerado normal, inovando e criando novas mentalidades e/ou mercados.
É fácil compreender o porquê de isso causar tanto fascínio, uma vez que um ato disruptivo faz avançar etapas, sendo assim, por definição, contra-institucional, pois se descola do que já é amplamente aceito e reconhecido por todos. Não será disruptiva uma ideia que expresse atitudes e concepções já arraigadas na sociedade. Antes, são eventos que puxam ou empurram o modo tradicional de se pensar ou fazer algo. E para não incorrermos em contradição, é importante insistir no fato de que saltar etapas não pode ser conservador.
Para superarmos a simples empolgação que envolve as grandes mudanças, é necessário analisarmos como amplas transformações são capazes de promover desenvolvimento e também fazer emergir uma série de defasagens.
O sociólogo e estatístico norte-americano Willian Ogburn, em meados do século XX descreveu o problema: quando a cultura material (Ciência, tecnologia, indústria) muda tão rápido que a cultura não-material (normas sociais e governança) tem dificuldade de acompanhá-la, temos um caso de defasagem cultural.
Essa defasagem foi um desafio mundial nos últimos séculos. Não encontraremos culturas inteiras completamente integradas às transformações materiais que vêm ocorrendo. Aliás, esse descompasso é o pano de fundo para as grandes crises e ressentimentos sociais que afetam de algum modo as mais variadas sociedades no mundo pós-moderno. E isso, claro, vira força ou fraqueza política, dependendo do ângulo que olhamos.
É evidente que há culturas que se integram mais rapidamente às mudanças. Até mesmo porque as mudanças surgem no seio de determinadas culturas antes de ganharem o mundo. Sendo assim, independentemente das diferenças nos ritmos de adaptação, podemos concordar com o especialista em evolução da cooperação Robert Wright: a parte disruptiva da cultura sai na frente da parte adaptativa.
Se olharmos atentamente reconheceremos que os ajustes culturais que acompanham os processos disruptivos podem ser espontâneos ou acabam carecendo de um esforço dirigido. Quando a defasagem cultural – nos termos de Ogburn – é persistente, geralmente lança-se mão de intervenção estatal, principalmente na área da educação. Porém, as experiências mais bem-sucedidas de adaptação aos processos disruptivos ocorrem em sociedades com maior cultura de responsabilidade individual, onde a sociedade é enriquecida por aquilo que Steven Pinker chama de “comércio gentil” – o auto-interesse que gera cooperação voluntária. Ou seja, onde o Estado dirige menos a adaptação.
Levando tudo isso em conta, não é arriscado dizer que o processo civilizatório brasileiro ocorre em ritmo muito diferente da complexidade dos mercados ou da modernização do próprio Estado. A sociedade brasileira tem custado a se adaptar ao desenvolvimento da economia moderna e dos processos institucionais. As normas sociais e de governança vêm de cima para baixo, manejadas por um sistema educacional insuficiente, desprezado e incapaz de evitar o fosso de inadaptação e defasagem cultural.
Nas frentes de competição, apenas uma fina camada superior se destaca, pois a disrupção é o seu negócio. E a cooperação é algo distante demais para quem está correndo sozinho, tentando saltar os buracos deixados pelo ritmo frenético das mudanças, antes que caia neles e não consiga sair de lá.
O mundo dá voltas, às vezes capota, e a nossa sociedade patina. Esperar que o Estado gere adaptação é arriscado, pois as ações dos governos são cada vez mais tecnicamente complexas e burocraticamente especializadas. Ou seja, como o Estado pode contribuir para a adaptação se ele nos afasta de suas decisões? A forma como o Estado se moderniza é um agravante para a defasagem cultural, pois não há participação social qualificada nessa modernização – culpa do Estado e de nós mesmos que não temos ideia de como usar nossos Direitos Políticos em sua plenitude.
Para corrigirmos a defasagem cultural e nos adaptarmos efetivamente aos processos disruptivos, precisamos de um esforço consciente por parte de quem mais fomenta a cooperação voluntária e a responsabilidade individual: a iniciativa privada.
Paradoxalmente, a inovação vertiginosa dos mercados pode resultar em mais rebaixamento da sociedade frente ao Estado, já que a ele caberá os esforços de adaptação por meio da educação de massa. A sociedade defasada não impacta apenas em baixa produtividade, mas também na ampliação dos papéis do Estado, pois este se consolida como árbitro supremo e tutor inevitável.
Sendo eu um conservador – e não um retrógrado – entendo que não deve ser o Estado o responsável pela cooperação e adaptação às mudanças. São as organizações sociais e produtivas que precisam orientar os indivíduos culturalmente, economicamente e até para a política (que não seja necessariamente partidária e nem inevitavelmente ideológica). Lembre-se que a família – até bem pouco tempo atrás – era uma unidade econômica fundamental, e isso conferia legitimidade à prerrogativa de orientar cultural e politicamente seus agregados. A família perdeu essa característica econômica e consequentemente seu poder de influência nas demais áreas. A responsabilidade ficou quicando e o Estado encampou.
O fortalecimento da família é uma luta de conscientização, pois é tarefa de cada família fazê-lo. Mas, é na estrutura das empresas privadas que podemos agir organizadamente para diminuir a defasagem cultural. Onde se ganha o pão também se valoriza a mensagem.
Poucos compreendem a profundidade da tal responsabilidade social das empresas. Sabemos que seus ganhos de capital vêm da inovação e produtividade. Por outro lado, os ganhos sociais dos quais as empresas são responsáveis se expressam na cooperação voluntária e na adaptação econômica, cultural e política que podem promover.
Além de gerar empregos e pagar altos impostos, as empresas terão que assumir conscientemente essa responsabilidade. Sem o desenvolvimento de capacidades adaptativas, os eventos disruptivos serão apenas parcialmente usufruídos, e a sociedade seguirá defasada frente a um Estado sempre pronto a ocupar espaços.
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