Política

Quem inventou a divisão social? E quem vai acabar com ela?

Embriagaram-se com a exaltação das diferenças, minorias e tudo o que soasse marginal

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Amir Kanitz

7 de dezembro de 2023

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Quem inventou a divisão social? E quem vai acabar com ela?

Embriagaram-se com a exaltação das diferenças, minorias e tudo o que soasse marginal

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Quando o assunto é divisão social, logo desponta o cansativo tema da polarização ideológica, que captura qualquer conversa e nos incentiva a buscar argumentos que desabonem quem não comungam conosco da mesma fé política. Todavia, além desse tipo de polarização há um tipo de ruptura que impede o exercício mínimo de cidadania que forma a base para uma sociedade justa, funcional e produtiva. Trata-se da polarização cultural.

Nesses termos, o que há de mais virulento não é a empolgação da nova direita patriota, mas o identitarismo progressista, que forja os conflitos culturais que atingem todas as sociedades ocidentais desde a década de 1960, irradiando mundo afora.

As divisões identitárias pautaram as políticas progressistas (esquerda cultural) nas últimas seis décadas. A revolução social esperada – e promovida – por essa gente se estabeleceu por meio da militância em torno das diferenças de gênero, étnicas, geracionais, etc. A velha e fracassada “consciência de classe” marxista ganhou frescor e se expandiu além do terreno econômico para todas as áreas da vida social. Reconhecer-se como excluído passou a ser a nova consciência.  A Teoria Crítica, concebida pelos intelectuais da Escola de Frankfurt, predominou no mundo acadêmico, contaminando toda e qualquer tentativa de formar interpretações ou esforços de conciliação social. Tudo, absolutamente tudo, passou a ser compreendido na base da relação opressor-oprimido.

Nas últimas duas décadas, a própria esquerda perdeu protagonismo, em parte por conta da obsessão identitária, pois desviou o foco que tinha (mais em slogans do que em ações benéficas) sobre necessidades do cidadão comum, conduzindo – como se percebe na afiada autocrítica feita pelo progressista Mark Lilla – a um distanciamento entre a esquerda e o povo. Embriagaram-se com a exaltação das diferenças, minorias e tudo o que soasse marginal. O problema é que isso ocorreu em detrimento das massas populares – antigo campo preferencial da esquerda.

Em que pese as dificuldades vividas por algumas minorias, o tipo de abordagem envenenou gerações, que passaram a se sentir estranhas em um mundo que não era feito para elas. A identidade cultural que destaca expressões marginais vem permeando tudo, e só tem “lugar de fala” quem prova ser um desprivilegiado. O fetiche pegou. Quem aceitou a premissa acreditou que a única saída é mudar o mundo por completo, pois qualquer tipo de assimilação seria ceder à lógica do opressor.

O sentimento faccioso insuflado pela militância identitária suscitou a reação de outros grupos, que passaram a combater com veemência essa campanha bem engendrada contra os padrões sociais. E reação é o termo mais apropriado, pois o que alavancou os movimentos conservadores nas últimas duas décadas foi a recusa de ficar em silêncio perante as minorias barulhentas que capturavam a atenção para questiúnculas, em nome de combater a moral e os bons costumes, condenando o cidadão comum por um suposto fascismo internalizado.

A temática identitária progressista balizou por décadas a produção acadêmica, e por conta disso alicerçou a formação de gerações de profissionais, que por consequência orientam decisões e políticas públicas, fornecendo argumentos legislativos, preenchendo agendas burocráticas e moldando o vernáculo do debate público. O povo reagiu. A reação veio em peso, mas desarticulada. A reviravolta foi absorvida por compreensível indignação, que por sua vez se tornou o principal combustível para incendiar tudo que confrontasse o comportamento padrão do homem comum.

Desse modo, o identitarismo, que nasceu para dividir, conquistou seu ápice na reação a si mesmo. O anseio por rupturas sociais e políticas também se instalou na reação às causas identitárias, pois se reage a tudo o que foi tocado por essas causas. Como postulou o cientista político alemão Yascha Mounk, o povo não se vê contemplado pela linguagem da democracia moderna – encampada pelo tribalismo identitário – e por isso reage contra as instituições, o Estado de Direito e a própria democracia. Nas palavras do salmista “Um abismo chama outro abismo”. A reação ao divisionismo tem sido mais divisionismo, incapaz até agora de preencher o espaço com algo substancial.

Não pretendo sugerir que as divisões sociais sejam equívocos de percepção. Não. A superfície trincada aponta para fraturas mais profundas na estrutura social. O abismo entre política institucional e a sociedade, por exemplo, é uma realidade muito sólida, sobretudo quando não faltam exemplos de castas bem posicionadas nas instituições, olhando o povo lá de cima, ou nem a isso se dignando. As instituições foram capturadas e modernizadas à revelia da sociedade, e isso é duplamente problemático, pois além de falsear a representatividade, a população desconhece as rotas efetivas de participação. A sociedade encontra-se prostrada, sem saber como dar o primeiro passo no longo caminho para as reformas institucionais que incluam seus valores. Ou seja, o pessoal lá em cima não nos representa, mas nós aqui embaixo também não sabemos manejar essa máquina, pois nunca mexemos com isso. Como resultado, a ideia de romper com tudo, de um só golpe, fica parecendo uma saída. Mas não é, pois isso seria uma solução simples para os problemas complexos de uma sociedade cada vez mais atomizada.

As divisões que apontei aqui dificilmente recebem alguma atenção que vise superar os problemas. O que geralmente acontece quando se explicita tais divisões é aparecer gente vociferando contra “os culpados”, exigindo que eles desapareçam, para então superarmos a polarização. Isso é matematicamente correto, pois se eliminarmos quem pensa e age diferente de nós, só ficamos nós, os bons (!). Mas isso não vai acontecer, e, espero, você já deve ter entendido isso.

E é bom entender também que boa parte da sociedade já se cansou da polarização e deseja que surja algum tipo de consenso mínimo, que não seja um pensamento único, mas um espaço de convergência. Porém, a esperança de surgimento desse consenso é toda direcionada para o resultado de um processo de dissenso, que é o eleitoral. É claro que não vai funcionar. As eleições se tornaram momentos de definição existencial, onde jogamos tudo, e sentimos que podemos tudo ganhar ou tudo perder. Quando é assim, a polarização recrudesce, os hiatos se ampliam, as arestas são afiadas.

Neste estado os laços sociais se desintegram, pois não há mais sentido em seguir regras mínimas de convivência, uma vez que não existe nenhum tipo de identificação entre os grupos sociais. Há algum tempo estamos flertando com esse tipo de desorganização. E, ainda assim, a saída projetada de parte a parte é subjugar o adversário em um processo eleitoral.

Eu mesmo jamais receitaria uma conciliação entre ideais inconciliáveis. Sei que há princípios que são inegociáveis. Há também espíritos ardilosos que se aproveitam da boa vontade de quem se dispõe a dialogar. Tudo isso deve ser devidamente ponderado. Porém, se o modus operandi continuar sendo investir na divisão social pura e simples, jamais enxergaremos soluções democráticas consistentes, pois se torna natural ver o outro como desprezível ou ameaçador. E o apelo se volta à eliminação de quem for percebido dessa forma.

As lideranças que têm despontado nesse contexto estão, infelizmente, investindo na divisão. A possibilidade que a tecnologia nos proporcionou para que a mensagem seja cada vez mais segmentada, incentiva movimentos e lideranças públicas ao discurso divisionista, falando cada qual com “o seu” povo, lisonjeando este e deplorando o resto. O problema é que isso tem surtido resultado eleitoral, o que é, como tenho insistido, toda a preocupação política neste país.

É difícil trabalhar desviando dos incentivos mais imediatos, que estão centrados nas polarizações. As lideranças públicas devem estar menos dispostas a afagarem seus correligionários e demonizar seus antípodas. E ao fazerem isso também precisam escapar do discurso vazio que desconsidera as diferenças e projeta um equilíbrio igualitário que não existe. Não é questão de ser bonzinho e vender esperança. As oposições seguirão existindo. O que precisamos é de algum grau de coesão que coordene as ideias políticas concorrentes. Sem isso não há chance de superar a paisagem com a qual já estamos nos acostumando, de violência, cooperação minguada, produtividade declinante e cidadania esvaziada.

Ser realista quanto às diferenças, mas não as manipular. Isso demanda muita consciência e preparo de quem quiser liderar rumo a uma sociedade mais coesa e funcional.

 

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